A Índia e a receita que deu certo

A Índia e a receita que deu certo

(Publicação: Lisiane Peccin Pratti)

Ao participar da missão empresarial promovida pelo Sebrae-RS, imaginava me deparar com uma realidade impar, mas nada parecido com aquilo que encontrei.
A Índia é um país de contrastes, e não obstante a pobreza encontrada nas ruas, ter um crescimento anual de 20% não é um dado banal. É por causa disso que a Índia, nas apostas do mercado, é tida como a próxima economia no planeta a alcançar 1 trilhão de dólares de Produto Interno Bruto. No ramo das exportações, o país tem uma fonte de 140 bilhões de dólares, 30 dos quais vindos do mercado de Tecnologia da Informação (TI). Até 2010, na mesma alucinante velocidade que andam os milhares de rickshaws (espécie de táxi de 3 rodas) espalhados pelas ruas, a meta indiana é dobrar esse número, atingindo 60 bilhões de dólares em exportação.

O desenvolvimento do setor de TI iniciou-se por lá nos anos 70, com o surgimento das novas tecnologias. Os indianos tinham as pessoas certas, com destreza no raciocínio abstrato e nas ciências exatas – e que, além de falar, também pensavam em inglês. Nessa época, a mesma facilidade logística que permite que cidades inteiras, devido à escassez de água, lavem as suas roupas em lavanderias públicas, em um processo primoroso que permite que, após serem as peças separadas por cor, nunca haja engano na hora na devolução, fez com que na década de 70 se traçasse linhas fundamentais de união. Paralelamente, ocorreu a chamada diáspora indiana, na qual milhares de jovens saíram do país para estudar em institutos como Michigan Institute of Technology, UCLA, Barkley, Standford, entre outros. No retorno, traziam na bagagem o conhecimento da tecnologia e das necessidades do mercado e também uma enorme carteira de contatos.

As oportunidades criadas com a onda de intercâmbio e o investimento estatal na educação foram fatores fundamentais para o que encontramos lá hoje. O inglês, presente nas escolas e nas faculdades (alguns cursos sendo integralmente ministrados na língua), e a possibilidade de a indústria influenciar diretamente nos currículos dos cursos acadêmicos podem ser tidos como peças-chave do sucesso.

Apesar do cenário positivo, a Índia não deixa de ser um país com 1 bilhão de pessoas, figurando na lista dos mais populosos e povoados do mundo. Esse fato lhe confere contrastes chocantes: prédios empresariais equipados com campos de golfe ao lado de casas construídas com barro e madeira. Isso explica o discurso atual da indústria, que, além de buscar aumento das exportações, também deseja fomentar o mercado interno a consumir tecnologia da informação. Existe a consciência de que se deve criar novos empregos com o setor de TI, evitando que os avanços tecnológicos causem um excedente crítico de pessoal.

O lema da IndiaSoft, feira visitada pela missão, “TI para todos”, reflete-se no pitoresco fato, para nós ocidentais, é claro, de que 90% dos casamentos entre jovens indianos ainda é arranjado e ocorre através de sites pagos na internet, que cadastram e encaixam o perfil dos futuros noivos.

A grande quantidade de habitantes, evidente em todos os locais, shoppings, praias, pontos turísticos e jogos de críquete, ajuda a entender também a grande quantidade de mão de obra disponível no setor. Abundância de mão de obra não quer dizer exatamente mão de obra qualificada dirigida ao setor produtivo. Nesse ponto, a iniciativa privada complementa as lacunas do Estado. Ao mesmo tempo em que o setor de tecnologia é praticamente desprovido de legislação e que as leis trabalhistas inexistem para os empregos de colarinho branco, a taxa de importação é zero para softwares e hardwares. A idéia de criar a sustentabilidade do todo reflete muito bem a filosofia e o modo de vida indiano. Lá, os empresários entendem que, em se tendo o público e o privado em sintonia, acelera-se o crescimento vertiginosamente.

Um exemplo concreto disso é o instituto sustentado pelas grandes indústrias de tecnologia – IIIT-B – International Institute of Information Technology – , que seleciona os melhores jovens saídos de cada faculdade e lhes proporciona um treinamento técnico e também em business, através de MBA’s e Masters. Somados, o conhecimento avançado e todos os incentivos econômicos proporcionam à Índia um diferencial de custo operacional de aproximadamente 30% em relação aos países desenvolvidos.

Diante de tal situação, resta ao Brasil aprender com o sistema de educação e comercialização desenvolvido pelos indianos, fazendo (TIRANDO) proveito da situação que ocupa na América Latina: a de ser o maior país e o único a falar português. A língua, que nos diferencia das demais nações americanas e impede uma invasão total de softwares importados, pode ser também uma ferramenta unificada para que empresas locais formem parcerias com as indianas.

As peculiaridades do mercado brasileiro e a sua complicada legislação também são um convite à cooperação, uma vez que os indianos têm plena consciência de que a indústria de TI depende do conhecimento a respeito do business de seus clientes, apresentando soluções perfeitamente adaptadas.

Letícia Balen Zereu Batistela – Consultora Jurídica em TI